Chris Sharma e o lado psicológico de um projeto
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Se você acompanha o universo da escalada você provavelmente viu o feito sobre humano da italiana Laura Rogora, que encadenou a via Bibliographie (9b+) em apenas 6 dias de tentativas. Foi um processo bem diferente da primeira ascensão feminina, feita pela eslovena Janja Garnbret há pouco mais de 2 meses e também da primeira ascensão feita pelo alemão Alexander Megos, em 2020. Ambos precisaram de algumas viagens à Céüse ao longo de alguns anos para conseguir conectar os mais de 80 movimentos distribuídos em 35 metros de uma linda parede de calcário. Mas o que muitos escaladores mais novos como eu não fazem ideia é o fato de que uma outra via, que dá nome ao setor da Bibliographie, foi fundamental pro desenvolvimento da escalada esportiva mundial e também de uma das maiores personalidades que esse universo já nos revelou.
A Biographie foi aberta em 1988 pela lenda local Jean-Christophe Lafaille e teve sua primeira ascensão realizada por nada mais nada menos que Chris Omprakash Sharma, no ano de 2001. A via foi a primeira que Sharma entrou na sua primeira viagem de escalada em rocha pela Europa com apenas 16 anos, quando já era um dos mais brilhantes escaladores do planeta. Ele começou no esporte aos 12, foi campeão nacional aos 14 e aos 15 encadenou a Necessary Evil (8c+), via mais difícil da América do Norte naquele momento. Mas a viagem à Céüse foi um balde de água fria na cabeça daquele jovem astro. Sharma tentou a via ao longo de 2 meses, sem sucesso, tendo caído umas 10 vezes no último trecho. Segundo ele, foi a primeira vez que ele falhou no esporte. Eu não consigo nem imaginar o quão bagunçada deve ficar a cabeça de um adolescente que vive imerso dessa forma no mundo da alta performance. Lembro que nessa idade eu ficava ansiosaço antes de um rotineiro amistoso de rugby contra outro time da minha cidade, me sentia o cara quando ganhava… Imagina se eu tivesse mandando as vias mais difíceis do mundo?


Sharma aos 16 anos na Biographie e em frente à falésia.
Numa entrevista pra Climbing Magazine ele mesmo disse que sua identidade como escalador tava completamente bagunçada naquele momento. Não nos faltam exemplos em vários esportes de como a profissionalização precoce de atletas pode causar conflitos internos em relação ao ego e à mente, não é mesmo? A escaladora Alannah Yip foi uma que trouxe esse assunto à tona no seu curta “Hello, Beautiful”, onde ela fala abertamente sobre as consequências mentais de falhar no esporte, tendo iniciado sua carreira em competições aos 10 anos de idade, com uma vida completamente orientada por grandes feitos e metas.

Janja Garnbret é outra que já falou sobre os contras dessa mentalidade quase intrínseca à vida de atleta. Em entrevista sobre a primeira ascensão feminina da Bibliographie ela revelou ser uma pessoa extremamente perfeccionista e impaciente justamente por “querer sempre conquistar, conquistar e conquistar”. Por se tratar de um setor a 2000m de altitude onde as condições climáticas mudam a todo momento, Janja foi obrigada a trabalhar esse traço de sua personalidade para alcançar mais essa conquista na sua carreira. Afinal, esteja você escalando seu V grau ou a Janja malhando uma das vias mais duras do planeta: a natureza diz se você vai conseguir escalar aquilo ali naquele momento, e não o contrário. Sendo assim, é melhor tanto pra ela quanto pra nós, meros mortais, aprendermos a lidar com a possibilidade não apenas da falha, mas também da impossibilidade da tentativa.
Agora se coloca no lugar do jovem Sharma: estar nos holofotes desde cedo, vencendo tudo que é campeonato, escalando as vias mais difíceis do mundo sendo apenas um adolescente. Dá pra entender porquê ele definiu o seu eu do passado como um “jovem punk levemente convencido”, né? Mas não tem jeito, se tem uma coisa que a Senhora Escalada sabe fazer é baixar a bolinha de seus praticantes, as vezes de formas bem cruéis. Pouco tempo depois da primeira investida na Biographie ele lesionou gravemente o joelho numa sessão de boulder em Yosemite, além de ter terminado seu primeiro relacionamento amoroso. Corpo e coração quebrado, mano Chris é gente como a gente! Mas não foi somente a lesão e nem a desilusão amorosa que fez um dos maiores escaladores da história recalcular a rota naquele momento. O que ocasionou a mudança na mentalidade de Chris foi um sentimento mais simples, quase infantil: a escalada tava deixando de ser divertida para ele. O apego aos números e a busca por ser sempre o nº 1 tava estragando a relação de Sharma com o esporte que era tão apaixonado.

A primeira realização de Chris na escalada após a recuperação da lesão foi o filme Rampage. O filme é um dos mais clássicos já feitos e tem uma peculiaridade que conversa diretamente com a mudança mental do protagonista naquele momento. A obra é um compilado de boulders, dos mais distintos estilos, ao redor dos Estados Unidos. Porém, indo na contramão do que costumamos ver em filmes desse tipo, nenhuma graduação foi mostrada ao longo de mais de 1 hora de filme. Segundo ele, foi uma forma de ressignificar o que era a escalada para ele naquele momento, com um propósito mais voltado para espiritualidade e menos para conquistas e reconhecimento. Se tu nunca assistiu corre pro Youtube agora (só acaba de ler esse texto antes hehe).
Sharma voltou à Biographie aos 19 anos de idade, depois de um profundo amadurecimento mental e espiritual, pronto pra cadena. Mas é claro que não foi simples assim, né? Ele ficou 1 mês tentando e tomando na cabeça, o que gerou mais um questionamento na mente da máquina: “Será que essa é a abordagem certa para eu continuar? Nessa linha midiática, misturando a minha paixão com negócios, notoriedade e fama?”
Após ser convidado a lidar com a frustração mais uma vez, Chris fez as malas e foi viajar sozinho pela Ásia por 8 meses. Entre escaladas e retiros de meditação, ele se hospedou durante 1 mês e meio em Dharamsalam, cidade no norte da Índia em que vive o Dalai Lama, onde participou de palestras que o líder religioso ministrou. Depois desse período introspectivo ele voltou aos EUA, mas não por muito tempo. Participou do Phoenix Bouldering Contest, à época uma das mais tradicionais competições de escalada em rocha, e correu para o aeroporto com passagem comprada pra França.
Dessa vez, Sharma estava na cabeça que devia chegar de forma mais discreta, tendo em mente essa relação mais pura com a escalada que ele tinha construído. O jovem que havia se tornado um pouco menos punk e convencido não queria levar nem a equipe de filmagem, mas uma conversa com o pai fez com que ele mudasse de ideia. A voz da experiência disse pra ele encarar as câmeras menos por uma perspectiva ególatra e individualista, e mais como uma oportunidade de mostrar sua escalada pro mundo e inspirar quem quiser se inspirar. Na minha visão se trata de um amadurecimento para entender que uma coisa não inviabiliza a outra: é possível levar a escalada como um trabalho (e por consequência ter que levar uma equipe de filmagem pra falésia e tudo que isso envolve), sem deixar de lado os princípios e a paixão pelo esporte. Esse equilíbrio talvez seja a receita que tornou Chris Sharma além de um dos mais bem sucedidos empresários desse universo, um verdadeiro alicerce da popularização do esporte ao redor do mundo.
Depois de muita (MUITA) repetição e aprendizado ao longo de 5 anos da sua vida, Chris Omprakash Sharma conseguiu escalar a Biographie sem cair na sua terceira investida. Ele decidiu nomear a via como Realization, por conta de um diálogo em que uma moradora do vilarejo local perguntou se ele havia realizado seu projeto (vale dizer que os padrões estadunidenses da época diziam que a via deveria ser nomeada por quem realizava a primeira ascensão, e não quem propriamente teve o trabalho de abrir a via). Chris decidiu não graduar a via à época por motivos que vocês já devem imaginar a essa altura do texto, mas as ascensões subsequentes fizeram com que a via se tornasse a primeira de graduação 9a+ do planeta. Mas como bem disse papai Sharma: é quase inerente ao ser humano querer quantificar coisas e isso faz com que muitas pessoas se tornem exageradamente obsessivas com esse aspecto do esporte.

André Berezoski
Então bora terminar esse texto falando de um lado bem mais interessante que une Sharma, Janja e uma lenda da escalada brasileira: André Berezoski (Belê pros íntimos). Indo de encontro com os relatos dos 2 estrangeiros sobre suas conquistas, num post da CBEscalada Belê disse que chega uma hora em que não é o físico que faz a diferença num projeto, mas a cabeça que precisa acreditar. Assim como afirmou Chris sobre a Biographie, Belê falou que as maiores conquistas da carreira, e não foram poucas, vieram no momento em que ele conseguiu levar a escalada de forma mais leve, entrando num estado de flow e sintonia entre corpo e mente. Fica a dica aí rapaziada, pode jogar o fingerboard fora e fazer uma terapia que o projetinho vai sair!
Brincadeiras à parte, queria agradecer a você que leu até aqui! Faz um tempo que tava com essa vontade de criar algo mais denso sobre escalada, coisa que o instagram limita um pouco, e a Patropi me deu esse espaço. Sei que o texto tá longe de estar perfeito mas vou seguir com a mesma mentalidade que tive quando comecei a criar conteúdo pras redes sociais: primeiro começo, no caminho eu me aprimoro. Me segue lá no instagram pra ver uns conteúdos legais sobre escalada e continua acompanhando a Patropi que tem coisa boa vindo aí.
Este texto é a estreia de Eduardo "Dudu" Pitombo como colaborador da Patropi News.