Modalidades do ciclismo e seus tipos de bike

Modalidades do ciclismo e seus tipos de bike

O ciclismo parece, de longe, um esporte só. Uma bike, uma estrada, pedalar.

Mas quando você chega perto, percebe que por baixo dessa palavra existe um conjunto de universos completamente distintos. Cada modalidade tem sua bike, seu terreno, sua lógica, seu tipo de atleta e sua comunidade. O que une todas elas é a sensação de liberdade que as duas rodas proporcionam.

Esse texto é um guia pelas cinco principais modalidades do ciclismo.

Pista

O ciclismo de pista acontece dentro de um velódromo. A pista é oval, inclinada nas curvas, feita de madeira ou concreto, coberta ou ao ar livre. É um ambiente fechado e controlado, mas a bike é o oposto de confortável, pois ela não tem nem marchas nem freios.

A velocidade da roda depende diretamente de quanto o atleta consegue girar o pedivela. Você não para de uma vez, a resistência da transmissão fixa desacelera a bike com você. Não há mecanismo de escape. 

Foto de Victoria Prymak

Foto de Anastasiya Chervinska

É uma das modalidades mais antigas do ciclismo olímpico e esteve nos primeiros Jogos Olímpicos modernos, em 1896. Os eventos incluem o Keirin (disputado atrás de uma moto que acelera progressivamente e sai de cena antes do sprint final), o Madison (prova em dupla com revezamento), o Omnium (combinação de quatro provas diferentes, com pontuação acumulada) e as provas de velocidade individual. Todos com baterias de eliminação.

Os atletas de pista são os sprinters do esporte. Muita massa muscular, capacidade absurda de gerar potência em segundos. O perfil físico é próximo ao de velocistas do atletismo, corpos feitos para explodir, não para durar horas.

A bike de pista: transmissão fixa, sem marchas, sem freios, quadro leve e rígido, geometria agressiva que coloca o ciclista numa posição bem aerodinâmica.

BMX

O BMX nasceu nos anos 60 na Califórnia como alternativa ao motocross. A proposta era simples: a mesma emoção das pistas de moto, mas acessível a qualquer pessoa com uma bike.

Eduarda Bordignon na BMX, foto de drop.bmx

Com o tempo, o esporte se dividiu em duas grandes vertentes.

O BMX Race é velocidade em pista. Os ciclistas largam de uma rampa inclinada, percorrem um circuito com saltos, curvas e rampas, e quatro ou oito corredores disputam ao mesmo tempo. É intenso, rápido e exige técnica apurada e explosão.

O BMX Freestyle é outra coisa. É sobre manobras, criatividade e interpretação do espaço. Tem quatro principais modalidades: Park, Street, Dirt (em rampas de terra), e Flatland (manobras de equilíbrio em superfície plana). Cada uma tem sua estética, seus tricks e seus atletas de referência.

As bikes são bem diferentes entre elas, sendo as do race mais longas e estáveis, feitas para rampas grandes e altas velocidades. Enquanto as de freestyle são mais curtas e ariscas perfeitas para manobras. No geral os quadros são relativamente pequenos e robustos, sem marchas, com um freio traseiro ou sem freio nenhum (freestyle).

O BMX Race entrou nas Olimpíadas em Atenas, 2004. O Freestyle chegou em Tóquio, 2020. Mas a cultura do BMX existe muito antes de qualquer reconhecimento olímpico e continua sendo, em grande parte, construída fora dos circuitos oficiais.

A bike de BMX: quadro pequeno e robusto, sem marchas, um freio traseiro (ou nenhum), rodas de 20 polegadas.

Estrada

O ciclismo de estrada é a modalidade mais conhecida do mundo. Tour de France, Giro d'Italia, Vuelta a España, Paris-Roubaix. Provas que duram três semanas ou que concentram tudo em um único dia brutal.

A Paris-Roubaix é um exemplo extremo: quase 260 km de percurso, com trechos em paralelepípedo que destroem equipamentos e testam limites físicos. Foi criada em 1896. O Tour de France estreou em 1903, com percurso de mais de 2.400 km divididos em seis etapas. Hoje, a corrida tem 21 etapas ao longo de três semanas.

A bike de estrada é projetada para reduzir resistência ao máximo. A ideia do quadro é ser leve. Inclusive, os melhores modelos chegam a menos de 7 kg completos. Pneus finos para minimizar a resistência ao rolamento. Guidão drop-bar, que coloca o ciclista numa posição inclinada e aerodinâmica. Múltiplas marchas focadas em ajudar o ciclista a manter a cadência da pedalada.

Henrique Bravo

Os ciclistas de estrada variam muito em perfil. Os escaladores são leves e têm ótima relação potência/peso para subir montanhas. Os sprinters são mais potentes, explosivos, e dominam os finais de etapa planos. Os all-rounders são os completos: resistentes, técnicos, capazes de fazer tudo e ainda os puncheurs, muito fortes em subidas curtas e explosivas No entanto, seria errado tentar rotular os atletas dessa forma pois muitas vezes eles extrapolam essas classificações sendo capazes de vencer provas em diferentes tipos de percursos.

Há também o contra-relógio, onde cada ciclista larga sozinho e vence quem completa o percurso no menor tempo. Bikes específicas, posição extremamente aerodinâmica, esforço máximo sustentado por 30 a 60 minutos.

A bike de estrada: leve e aerodinâmica, guidão drop-bar, pneus finos, múltiplas marchas.

Ver Rack Vertical Bike

Mountain Bike

O mountain bike nasceu nos anos 70 em Marin County, norte da Califórnia. Um grupo de ciclistas queria descer as montanhas locais de bike, mas as bikes de estrada não aguentavam. Então adaptaram: reforçaram quadros de bikes antigas, trocaram pneus, instalaram freios mais potentes. Chamaram elas de "klunkers" (latas-velhas).

Karen Olimpio

O esporte cresceu, profissionalizou-se e se ramificou. Hoje o mountain bike é um guarda-chuva que abriga modalidades completamente distintas:

O XC (cross-country) é sobre resistência e técnica. Os percursos misturam subidas, descidas e terrenos variados. É a modalidade olímpica, presente nos Jogos desde Atlanta, 1996. Ele ainda pode ser dividido entre XCO (olímpico), XCC (Short-track), XCE (Eliminator) e o XCM (Maratona).

O Enduro mistura subidas (deslocamentos) e descidas (especiais) cronometradas separadamente. O ciclista pedala os deslocamentos por conta própria (sem cronômetro), com um tempo limite e então disputa as especiais em que vence quem as completa com a menor soma de tempos.

O Downhill (DH) é velocidade pura em descidas íngremes e técnicas. Os ciclistas sobem de teleférico ou algum outro meio de transporte e descem em velocidades que chegam a 80 km/h em alguns trechos.

O Slope Style é julgado. Os atletas percorrem um circuito com rampas e obstáculos construídos e são avaliados pela qualidade e criatividade das manobras.

O Freeride é a versão mais livre, sem regras formais, com foco em linhas impossíveis em terrenos naturais. Seu maior evento é o Red Bull Rampage onde os melhores freeriders se juntam no deserto e constroem suas próprias linhas.

E o E-MTB, com motor elétrico de assistência à pedalada, cresce entre ciclistas que querem explorar trilhas sem a exigência física extrema.

A bike de MTB: pneus largos com cravos, suspensão dianteira ou dupla, quadro robusto, geometria estável para transpor obstáculos.

Gravel

O gravel nasceu de uma pergunta prática e sem resposta perfeita: qual é a melhor bike para uma estrada de terra?

A road bike é rápida, eficiente e leve, mas os pneus finos sofrem no cascalho. A MTB aguenta qualquer terreno, mas é pesada e lenta demais para percorrer longas distâncias. Por décadas, ciclistas que queriam explorar estradas de terra ficavam divididos entre as duas.

A gravel veio pelo meio. A largura ideal dos pneus varia de acordo com o terreno, possuem cravos curtos, para dar aderência em terra e absorver impactos sem sacrificar velocidade. Guidão drop-bar e geometria próxima da road bike, mas mais estável, para manter eficiência e conforto em percursos longos. Muito comuns também pontos de fixação para bolsas e equipamentos de cicloviagem.

É a bike das estradas de terra sem fim do interior do Brasil. Das cicloviagens que duram dias. Das provas de ultra-distância que crescem nos últimos anos.

A bike de gravel: pneus intermediários com cravos leves, guidão drop-bar, quadro versátil, mais conforto e robustez que a road.

São muitas categorias, algumas não foram mencionadas como o bike trial. Várias bikes diferentes. Cada uma construída para um tipo específico de relação com o movimento, o terreno e o esforço.

O que une todas elas é a sensação de liberdade que só a bike proporciona.

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