Siurana, uma das mecas da escalada
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Sendo sensíveis e subjetivos, todo lugar pode parecer especial dependendo do olhar de quem observa. Mas Siurana é diferente. Há algo ali que foge do comum.
Não é apenas mais um setor de escalada.
Encravado entre as montanhas catalãs, Siurana nos deixou sem palavras. Conhecida como a meca da escalada espanhola e, sem exagero, uma das grandes mecas da escalada mundial, ela faz jus à fama. São mais de 1.700 vias distribuídas entre paredões envoltos por bosques de pinheiros verdes, acompanhados pelo movimento ondulante das montanhas. A paisagem já impressiona antes mesmo de tocar a rocha.

Chegar ali é sentir um sol generoso nas costas, o ar fresco do outono europeu e um cheiro limpo que parece atravessar o corpo. Há também a sensação constante de estar sendo observado: o vilarejo de Siurana, cravado na montanha, aparece como parte indissociável da paisagem, como se sempre tivesse estado ali.

O que sustenta e mantém viva esta região do Priorat é a combinação improvável (e perfeita) entre vinho e escalada. Quem diria: nós, escaladores, somos grandes aliados da uva.
Descrever Siurana é quase como ampliar ao máximo um ponto qualquer no mapa. E foi justamente por esse ponto que passaram, ao longo de mais de 30 anos, algumas das maiores lendas vivas da escalada: Chris Sharma, Alex Honnold, Ana Belén, Seb Berthe, Alex Megos, Janja Garnbret, Adam Ondra, Felipe Camargo, Jorge Díaz-Rullo, Ainhize Belar, os irmãos Pou, entre muitos outros.
E, claro, há também o resto de nós. Os mortais que, ano após ano, visitam essas rugas impressionantes da Pachamama. Somos uma comunidade imensa de escaladores que tenta, cada um a seu tempo, se aproximar dessas referências que moldaram e seguem moldando a nossa inspiração.
No mês de novembro, acontece o Festival de Siurana, patrocinado pela Tenaya. Durante um fim de semana, esse pequeno ponto do mapa abre espaço para reunir viciados em adrenalina vertical de todas as partes do mundo. Cursos e workshops de escalada, palestras técnicas e momentos de troca que vão muito além da performance.






A programação se completa com uma festa simples e divertida, comida local e música. Entre cantos espanhóis, ouviam-se diferentes línguas: francês, italiano, português, inglês, japonês, esloveno, chinês, russo, colombiano. Um retrato fiel da escalada como linguagem universal.
O festival conta ainda com dois grandes campings, um deles pertencente a Toni, um dos primeiros equipadores das centenas de vias que hoje recebem milhares de escaladores há mais de três décadas. Além disso, não faltam opções de estacionamento e hospedagem: motorhomes, vans, casas, apartamentos e pequenos refúgios espalhados pela região.
Esses encontros existem, acima de tudo, para nos reunir. Para aprender, observar, admirar, exercitar a paciência e nos conectar com pessoas que vibram na mesma frequência. A mesma sensação de plenitude que sentimos quando o corpo sobe pela corda, encontrando imperfeições precisas na rocha.
O estilo de escalada em Siurana é exigente. Muitas linhas apresentam grandes afastamentos entre as chapeletas, regletes pequenos, pés mínimos e o corpo sempre bem colado à parede. Em vias mais verticais, o capacete é parte do ritual. Ainda assim, há espaço para todos: do quarto ao nono grau, um luxo raro que permite que qualquer escalador encontre seu lugar ali.
Siurana é um lugar para ser vivido por inteiro. Um lugar do qual já sentimos saudade enquanto descemos pelas estradas sinuosas que nos tiram do que parece ser o limbo dos deuses. O título de meca da escalada não veio por acaso, foi conquistado pela qualidade.






Talvez o mais bonito de ser escalador seja isso: não somos apenas viciados na vertical. Amamos a natureza e tudo o que envolve ir escalar. É um contato direto com algo interno, silencioso. Com a energia quase sempre boa que encontramos aos pés das vias.
Nossa alma descansa no reflexo dos bosques verdes. O corpo, em movimento, libera endorfinas. A mente trabalha fragilidades e fortalezas, aprende com quedas e medos. A escalada nos devolve humildade.
Somos privilegiados por poder viver e compartilhar isso. Como neste fim de semana em Siurana. Já estamos na contagem regressiva para voltar.
Se a ideia for organizar uma euro climb trip, anota aí: outubro e novembro, no outono, são provavelmente o melhor momento para viver Siurana, clima estável, boa fricção e a paisagem no seu ponto mais bonito.