O sublime não está na montanha
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Imagine chegar ao topo de uma montanha após um trekking longo e desafiador. O corpo cansado, o ar rarefeito, mas, diante de seus olhos, uma vastidão que parece não ter fim. Lá embaixo, vales e rios se tornam pequenos, quase insignificantes, enquanto o horizonte se estende muito além do que seus olhos podem alcançar. Nesse momento, você sente algo maior do que a satisfação do esforço cumprido. Não é apenas a beleza da paisagem que o toca, mas uma emoção que mistura assombro e elevação. Esse é o sublime, uma experiência que não está na montanha, mas no estado de ânimo que ela desperta em você.



Para Kant, o sublime não é uma qualidade do objeto, mas algo que acontece no sujeito, no modo como ele sente ao se confrontar com o grandioso ou o incomensurável da natureza, que se apresenta diante de nós além de qualquer unidade de medida possível, além de qualquer comparação. Não se trata tão somente da beleza. A beleza está na contemplação serena e desinteressada. O sublime, ao contrário, é marcado por uma tensão inicial, uma emoção violenta, um abalo. A beleza nos atrai. O sublime, alternadamente, nos atrai e nos repele. A vastidão de uma montanha ou a força de uma tempestade parece, à primeira vista, esmagar-nos com sua grandeza ou poder. Mas, ao mesmo tempo, esse sentimento de pequenez do sujeito é superado quando nossa razão se eleva, percebendo que podemos conceber o infinito ou resistir moralmente a forças avassaladoras e que a própria ideia de humanidade é superior à natureza que nos desafia.


Kant identifica dois tipos de sublime: o matemático e o dinâmico. O sublime matemático ocorre diante da imensidão – uma cadeia interminável de montanhas, o céu estrelado em uma noite clara, ou o oceano se estendendo até onde a vista não alcança. Aqui, a imaginação se esforça em vão para captar a totalidade do que está diante de nós, mas falha. O objeto nos desafia porque é maior do que qualquer medida que possamos atribuir a ele. No entanto, essa mesma falha da imaginação revela o poder da razão, que é capaz de conceber ideias como infinito e totalidade. Assim, o prazer do sublime matemático não está no objeto, mas na descoberta de que nossa razão transcende os limites dos sentidos.
Já o sublime dinâmico surge diante da força bruta e avassaladora da natureza. Uma avalanche descendo pela montanha, um vulcão em erupção, uma tempestade rugindo no alto de um pico, o estrondo de uma cachoeira que nos ameaça com seu poder destrutivo. Essas situações evocam em nós um medo inicial, pois, como seres físicos, reconhecemos nossa fragilidade. No entanto, à medida que percebemos que somos capazes de resistir a esse medo – não fisicamente, mas moralmente –, surge a elevação característica do sublime. O que nos toca não é a força da natureza em si, mas a certeza de que, como seres racionais, possuímos uma dignidade que nenhuma força externa pode subjugar.

É importante enfatizar que, para Kant, o sublime nunca está na montanha, na tempestade ou no oceano. Esses objetos naturais são apenas ocasiões que despertam em nós o estado de ânimo sublime. O que é sublime, afinal, é o movimento interno do sujeito, que começa na limitação dos sentidos e se eleva até o poder da razão. A montanha, por mais majestosa que seja, é apenas um espelho em que projetamos nossa própria grandeza.
E o que isso significa para quem busca estar junto à natureza? Escalar uma montanha, cruzar florestas ou enfrentar as intempéries não é apenas um ato de aproximação ao mundo natural. É também um encontro consigo mesmo. Diante do que parece incomensurável ou avassalador, a experiência do sublime nos lembra que somos pequenos diante da natureza, mas que carregamos dentro de nós algo maior do que qualquer força física: a capacidade de compreender, resistir e admirar. A razão. A liberdade.