Robert Pirsig e seu filho em cima da moto do livro Zen

O lado invisível de um bom projeto

Imagine a cena:

Você está consertando uma moto.

Já leu o manual. Já entendeu os passos.

Vai precisar abrir uma tampa lateral — e o primeiro passo é simples: tirar um parafuso.

Você pega a chave.

Tenta girar.

Nada.

Confere se está fazendo certo.

Volta no manual. E lá está, impresso com frieza:

“remova a placa lateral"

Sem alerta, sem alternativa. Como se o mundo fosse perfeito.

Mas o parafuso não gira.

Você tenta de novo. Força um pouco. Estraga a fenda.

Agora o parafuso está danificado. E a moto? Continua parada.

O projeto inteiro travou.

Sabe o que é o pior? Sua cabeça já estava em outro lugar. Você já tinha imaginado a peça nova no lugar. Já estava pensando na estrada.

Só que você ficou preso antes de começar.

Pirsig, no livro Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, descreve esse exato momento.

Não como um detalhe técnico. Mas como um abismo existencial.

Pirsig fala que esse é o ponto zero da consciência. Travado. Nenhuma resposta.

É aqui, diz ele, que a ciência tradicional falha.

Porque o manual não ajuda. Ou seja, o raciocínio lógico não resolve.

A única saída real passa por outra coisa: a Qualidade.

No livro, Qualidade é o nome que ele dá àquilo que antecede o raciocínio lógico. É uma espécie de intuição ativa, que sentimos quando algo é bom — mesmo antes de sabermos explicar por quê. É o fio invisível que conduz a criação, a solução e o caminho certo.

E é também o tema central de toda a obra.

“O método científico só funciona quando as hipóteses já existem. O travamento é o momento em que nada existe.”
— Robert Pirsig

E aí, o que você faz?

O que o Pirsig propõe é simples e radical.
O travamento não é o fim — é o começo.

Ele é o momento em que você sai do automático.

Em que para de seguir os trilhos dos outros.

Em que começa a ver com seus próprios olhos.

O travamento não deve ser evitado. Ele é o predecessor de toda compreensão verdadeira.

Essa é a virada. Quando você deixa de ver um “parafuso” e começa a perceber um sistema, uma função, uma história, um obstáculo real que exige uma resposta criativa.

Você para de pensar como resolver “isso” e começa a se perguntar: por que isso está aqui?

O que isso quer me mostrar?

É nessa mudança de lente que a resposta aparece.

Às vezes com um desengripante.

Às vezes com uma ideia que ninguém teve antes.

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas

Quem me recomendou a leitura desse livro foi minha mãe. O livro é dos anos 70 e são quase que 3 livros em 1. É um livro que mistura uma viagem de moto, filosofia e uma busca profunda por sentido. Ele narra uma jornada com o filho e ao longo da viagem ele vai refletindo sobre razão, emoção e um conceito central que ele chama de Qualidade — algo que orienta escolhas e dá valor à vida antes mesmo de virarmos especialistas ou sabermos explicar o porquê.

Eu comecei esse livro antes de criar a Patropi, acabei fazendo uma viagem ao Equador e fiquei meses sem voltar a tocar nele. Depois, recentemente, decidi terminar a leitura e foi excelente. A reflexão que eu trouxe acima do parafuso é apenas uma, de uma obra muito mais intensa.

Fica como dica caso estejam buscando alguma leitura.

Esse livro reforçou em mim a importância de criar algo bonito e bem feito pelo simples prazer de criar. A sensação que ele deixou em mim se resume bem na paráfrase de um dos maiores designers gráficos do século XX:

“Estética é um problema seu e meu. De mais ninguém.”
— Saul Bass

Ele não criava para agradar. Criava porque acreditava naquilo. Mesmo que o cliente não notasse. Mesmo que ninguém se importasse. Fazer bonito era um valor em si.

Às vezes, a gente não sabe exatamente o que é que faz um produto ser melhor. Não dá pra medir em milímetros, nem colocar numa planilha.

Mas a gente sente.

Sente quando aquilo foi feito com tempo, com cuidado, com presença.

Porque a beleza não é um luxo, mas um princípio.

E é desse princípio que nasce o nosso lema. Não à toa, o slogan da Patropi é uma homenagem ao nosso país tropical: bonito por natureza.

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