Espiel San Jose se paso a la deportiva

O que é um multipitch na escalada?

Você já ouviu falar em multipitch?

Quando você pensa em escalada, o que vem à sua mente?

É uma parede de ginásio, cheia de agarras coloridas?

Ou talvez um bloco de pedra, com alguém tentando resolver uma sequência curta e explosiva?

Para muita gente, escalada é boulder. Esse estilo nasceu da prática de treinar movimentos em blocos baixos, sem corda, usando apenas crash pads para amortecer as quedas.

Para outras pessoas, escalada é o que chamamos de esportiva: vias curtas, de 10 a 30 metros, equipadas de antemão com chapas e grampos.

Mas esse final de semana eu e Sofia fizemos uma escalada diferente. Uma escalada que tem mais a ver com a raiz do esporte, quando escalar ainda era extensão do montanhismo. Uma via de 150 metros, dividida em cinco enfiadas. Esse tipo de escalada a gente chama de multipitch.

E é sobre ela que eu quero falar hoje.

Como começou a escalada

Um alpinista antigo queria, acima de tudo, chegar no topo da montanha. Esse era o objetivo. E pra chegar lá em cima, muitas vezes, não bastava caminhar: era preciso inventar maneiras de vencer trechos de rocha e subir em paredes inclinadas. Assim, quase sem perceber, nasceu a escalada.

Alpinista

Depois de um tempo, não era mais só sobre alcançar o ponto mais alto. O olhar começou a mudar de direção. Passou a ser também sobre enfrentar as grandes paredes verticais — lugares onde o desafio não é apenas a altura, mas a dificuldade dos movimentos, a falta de agarras, o vazio embaixo dos pés.

As Dolomitas, na Itália, se tornaram palco de algumas das primeiras aventuras assim. No Brasil, o Dedo de Deus foi conquistado em 1912, considerado o marco inicial da escalada em rocha no nosso país. E no Yosemite, nos Estados Unidos, paredes como o El Capitan viraram um laboratório de estilos e ética.

Dedo de Deus
Dedo de Deus (RJ) — uma das fotos mais icônicas da rocha, com escaladores em seu topo.

O que é o multipitch

Mas para subir essas grandes paredes verticais, havia um problema físico: uma corda de 50 ou 70 metros nunca seria suficiente para paredes de centenas de metros.

A saída foi dividir a escalada em pedaços. Cada pedaço ganhou o nome de pitch. No final de cada um, os escaladores montavam uma reunião — um ponto de encontro, um respiro, antes de seguir adiante.

Assim nasceu o que hoje chamamos de multipitch — ou, em bom português, via de várias cordadas (parede, para os íntimos).

Escalar uma via de várias cordadas pode levar horas ou um dia inteiro. Às vezes, é preciso até dormir na parede, em portaledges suspensos ou até mesmo equilibrado em pequenas saliências de rocha.

Meu relato pessoal

Quando eu e a Sofia fomos escalar esse multipitch, a parte que mais me marcou não foi a dificuldade dos movimentos em si, mas o peso psicológico.

Escalada psicológica

San José se pasó a la deportiva (The Crag)

Esse foi o multipitch que escalamos, aqui pode-se ver os 5 pontos de reunião e a dificuldade de cada trecho.

Muita gente fala que tem “vertigem” quando vai escalar, mas na real é só medo de altura — e ele faz sentido. Nosso instinto natural é ficar no chão, não ficar pendurado em uma parede de 150 metros, preso por pequenas chapas. Quanto mais alto você vai, mais esse medo aparece.

No multipitch, essa sensação se intensifica. Você está lá em cima, segurando a vida do seu parceiro, consciente de que cada gesto precisa ser preciso. Se deixa cair um equipamento, não é como na esportiva, em que a pessoa simplesmente desce. Ali em cima, cada descuido pode comprometer toda a cordada.

E tem outra coisa: muitas vezes, os trechos mais tranquilos da via são justamente os mais psicológicos. Porque, por exigirem menos esforço, a proteção fica mais distante. Você anda cinco ou seis metros sem nada clipado e pensa: “ok, eu não vou cair… mas se cair, vai ser feio.” Essa consciência constante vai drenando energia.

Na esportiva, você sobe, faz força, mas logo desce até o chão e o medo se interrompe. Na parede é diferente: você não desce, você segue sempre pra cima. E isso significa que o medo perdura. Você lida com ele por horas, às vezes o dia inteiro. Essa permanência, esse psicológico estendido, drena uma energia enorme.

Espiel Bruno

Mas apesar de tudo isso, terminar um multipitch é uma recompensa difícil de descrever. A sensação de chegar no fim da via, depois de tantas horas, é de alívio e conquista. A cerveja que você toma depois parece a melhor do mundo. E também o conforto de chegar em casa e valorizar a nossa cama como nunca. Faz uma experiência única.

Foi aí que eu percebi uma coisa: na parede, a calça da Patropi cumpriu exatamente o que deveria: me deixou livre, confortável, sem incomodar em nada. E é assim que uma roupa boa deve ser — algo em que você confia para estar presente no que realmente importa.

No fim das contas, isso vale pra vida também. Roupa não deveria ser uma preocupação, mas um suporte. Algo que serve você, e não o contrário.

Ver peças da Patropi

Histórias que ficaram

The Nose, El Capitan (EUA): com mais de 30 pitches, é talvez a via mais famosa do mundo. Abriu caminho para o big wall moderno e ainda hoje é referência.

Dedo de Deus (RJ): sua conquista em 1912 inaugurou a escalada em rocha no Brasil e mostrou que o país também tinha paredes à altura do mundo.

Dolomitas (Itália): palco de algumas das primeiras vias longas da história, misturando aventura, guerra e montanhismo.

Yosemite
Yosemite — EUA
Dedo de Deus RJ
Dedo de Deus — Brasil (RJ)
Dolomitas
Dolomitas — Itália

Cada parede conta uma narrativa própria. E se você quiser mergulhar mais fundo nesse universo, recomendo o documentário abaixo.

Ele conta como o Vale do Yosemite se tornou o epicentro da escalada, mostrando não só as conquistas das grandes paredes, mas também os personagens, as rivalidades e a contracultura que ajudaram a moldar o que conhecemos hoje como escalada moderna.

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